Before
Ela
Como cheguei? Mas que maldição!
Que lugar é esse que estou
Que não posso ver meu amor?
É o inferno? Acho que não...
A dor do meu peito cessou!
Ai, Deus...! Que pavor!
O Homem
Minha jovem... está bem aqui
Apenas não poderá voltar,
Não poderá partir
Jamais desse lugar.
Ela
Nunca mais?
O Homem
Isso mesmo. Jamais.
Ela
Oh, não! Não
pronuncie palavras tais!
E, por favor, diga aonde estou
Pois quero ver o meu amor
E dizer que a dor do peito passou
O Homem
Perdoe-me, por favor, pelo que vou dizer
Mas você não pode sair daqui
Porque acaba de morrer!
Ela
Oh, não! E nem apenas
Uma palavra de conforto
Poderei dizer, ao menos,
A quem chora meu corpo morto?
O Homem
Pobre ser, que na Terra perece
E que, como Camões,
Forja poemas com suas preces...
Ela
Gentil senhor... sendo assim... então
Permita-me voltar...
O Homem
Não! Já disse que não poderá voltar
Como mulher, assim tão bela.
Entenda: a morte vocês separou.
Ela
Mas permita-me, pelo amor de Deus
Tomar forma de qualquer coisa
Por mais que seja horrorosa
Mas que me deixe ver seus olhos, e ele os
meus!
O Homem
Pois bem, se o ama, o verá.
Mas a forma de um Corvo,
Um hierático e soberbo Corvo tomará;
E apenas uma palavra pronunciará.
Ela
Eu agradeço, meu gentil senhor,
Do acento estéril que minha alma jaz.
Mas qual palavra que, para meu amor,
A minha boca pronunciará?
O Homem
“Nunca mais”.
E você, Lenore, poderá assim ficar
Para sempre com seu amor,
Porém a única coisa que irá falar
Será o epitáfio:
Nunca Mais.
(E ELA se foi)
(O HOMEM agora pensa consigo)
O Homem
Nunca... Mais...
É a única forma daquele ser
Conseguir compreender.
Que não basta uma Annabel
Para um anjo com coração de fel
Se contentar.
Porque anjos não conseguem
E não podem amar.
Então resta a mim
Ser um anjo caído
E apenas invejar...
Ela chegou.
Agora, como diz o outro
Que também vive a poetar:
"Cala-te. Ouçamos."
Deborah O'Lins de Barros

