Home Data de criação : 07/02/23 Última atualização : 08/11/05 15:57 / 59 Artigos publicados
 

cidade maravilhosa  (poesia "nova") escrito em segunda 24 setembro 2007 17:43

Imaginando um tema para poder escolhar os poemas para serem lidos no lançamento do livro do Isaías, "Tempo de Ordem", cheguei a uma idéia legal: "invenção da identidade nacional". Hehe, fui obrigada a ler os poemas do Oswald Andrade que satirizam essa construção no momento em que ela se dá (como os poemas de "Poste da Light"), no início do Estado Novo. Acabei entrando na brincadeira e compondo esse. Como a base da minha identidade nacional é carioca, retrateiuma coisa frequente e quase irritante: é humanamente impossível atravessar a Av. Pres. Vargas de uma vez. Você consegue chegar na metade e o sinal fecha. É a minha satirizada homenagem ao meu querido Oswald e ao presidente do Estavo Novo: Getúlio Vargas. Divirtam-se.

 

Cidade Maravilhosa

 

Av. Presidente Vargas

Sábado é o dia

De andar em zigue-zague

Nas ruas principais.

 

Porém nas capitais

Todo dia é dia

E o dia todo se anda em zigue-zague.

 

Na capital de onde vim

Há uma avenida de quatro ruas,

Imagine atravessá-la ao meio-dia...

 

Empurra-empurra

Não sei se é no sul ou só aqui,

Mas na cidade de onde vim

Se há pressa, há empurra-empurra.

 

Na rua da Alfândega, onde tem o Saara,

É impossível passear vendo as lojas,

A rua é tão estreita quanto a ex-chique Ouvidor.

 

As ruas de calçada larga

Também são estreitas para os quatro milhões

Residentes na cidade maravilhosa.

 

E é com uma rua larga

Que eu, teimosa,

Tenho um assunto pendente:

 

Um dia, ao meio-dia,

Vou atravessar a Pres. Vargas, inteirinha,

E de uma vez só.

 

Deborah Lins de Barros

 

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às vezes eu queria ser a Maria Callas  (crônicas) escrito em quarta 12 setembro 2007 17:25

     Todos os que não são mudos cantam. Eu canto. Canto mal pra caramba, mas canto. O engraçado é que eu toco violão até bem, só que mais da metade das pessoas que me conhecem não sabem disso. Eu tenho consciência da minha cantoria, sou quem mais aprendeu com João a sempre ser desafinado...

     Nessa última semana prestei atenção em três vozes em especial: Gal Costa, Luciano Pavarotti e Maria Callas. Fui à apresentação da primeira, o que me rendeu um autógrafo no disco que levei. O segundo foi convocado para um show apoteótico no Olimpo, e não posso deixar de manifestar a inveja que senti da minha mãe, pois ela comparecerá, eu não. Sobre a Callas... Ah... a Maria Callas... Ontem ela cantou Carmen para mim, no disco de luxo que ganhei de aniversário da Ivana.

     Por que alguns cantam tão bem e eu não canto nem bossa-nova? O que me consola é uma crônica de um livro do Afonso Romano de Sant'ana, que reflete sobre a diferença de cantar bem e cantar com a alma. Como a crônica é um bate-papo do autor consigo mesmo, me dou o direito de fugir do assunto só um pouquinho, um parágrafo. Já conhecia o nome Afonso Romano de Sant'ana de jornais. JB, provavelmente. Nunca dei bola, até porque estava no auge do meu namoro com o Fausto Wolff e Fernando de Castro. É perdoável. Eu aprendi a não ignorar crônicas. E nem nomes que não conheço por não procurar saber.

     Voltando ao assunto, mas continuando sobre a ignorância, Pavarotti deve ter chegado lá em cima um pouco decepcionado com nós que ficamos. Ele levou a ópera ao povão e, desde que parou de cantar, esse povão simplesmente o apagou da memória. A minha esperança é que talvez eles não estejam prontos para (re)descobrir o grande Caruso de nossa época. Pavarotti além de cantar bem, cantava com a alma.

     Escrevi tudo isso por que, lendo o livro de crônicas do meu novo amigo Afonso, descobri que canto mal, mas quando estou sozinha com o meu violão, canto com a alma. Porém outro dia, voltando para casa ouvi uma Ave Maria cantada pelo grande tenor que se foi. Aí, naquele momento eu pensei "ah, como eu queria ser a Maria Callas..."

 

Deborah O. Lins de Barros

Itajaí, 12/09/2007

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e alguns anos depois...  (crônicas) escrito em quarta 29 agosto 2007 17:14

E alguns anos depois, revi minha primeira professora predileta

 

     Definitivamente estou entrando numa nova fase da minha,literatura. Agora que a minha mãe não está mais aqui, fisicamente perto de mim, até a minha lapiseira oficial - a Sherazade - ficou de luto. Simplesmente não funciona mais. E não me devolve as grafites que inutilmente depositei, esperançosa, ainda.

     Enfim, na mesma semana que a melhor crítica dos meus escritos se foi, encontrei junto com a minha irmã Rachel, coincidentemente tanto a minha quanto a professora predileta dela. Quanto à dela, não direi, mas a minha... Tia Ana Cláudia me deu aulas de matemática na 2ª série, época em que eu queria ser "arquiteta e bailarina". Imagine o orgulho que ela sentiu quando eu disse isso... Fiz até uma dedicatória para ela em duas edições da revista literária que escrevo. A gente sentiu o quanto o tempo passou dessa forma: a conversa começou quando a tia Ana Cláudia me pediu um isqueiro emprestado... E mais: eu não senti medo da tia Leila, que é coordenadora, inspetora, sei lá, sei sei ir até a sua sala era bronca certa.

     Pois bem, voltei para casa, em Santa Catarina, Estado lindo que me abrigou com tanta cultura. Ainda me vejo carioca, mas os cariocas notaram meu sotaque deturpado. Ainda por cima eu, logo eu, ex-frequentadora da Lapa, senti um quase-medo de andar pelas ruas (desculpe o plágio, Djavan) de minha triste cidade... Agora, de fora desse paradigma chamado Rio de Janeiro, me vejo brasileira.

     Nesse sábado de folga, ainda apenas brasileira, descubro que tenho capacidade para um dia me ver cidadã do mundo:  assisti a um filme italiano, dirigido por um estadunidense, que fala do chileno Don pablo Neruda; li algumas crônicas do Drummond, mineiro que falava do Rio tão bem quanto o João e acabei de ouvir um disco da portuguesa Amália Rodrigues. Isso tudo sem precisar sair do meu quarto sulista, que agora tem mais a minha cara com o quadro do inglês John Lennon pendurado na parede.

     Bem, é só. Essa é a Deborah hoje. Só preciso tomar vergonha na cara e ler Kafka de uma vez. Se perdi o medo da tia Leila, não será "Metamorfose" que irá me intimidar dessa vez. Tia Ana Cláudia  me desculpe, mas eu odeio matemática. Porém se na 2ª série eu gostava, você é a pessoa número 1 a quem devo agradecer por hoje eu ter consciência de toda essa metafísica louca a que me propus. Saudações, tia Ana Cláudia, a minha primeira professora preferida! E obrigada mamãe, por pedir a Deus que criasse esse encontro-coincidência. Eu reconheci logo, isso tem a sua cara. Beijão.

 

Deborah O. Lins de Barros

18/08/2007

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25 de julho: dia do escritor!!!  (infelizmente não fui eu que escrevi) escrito em quarta 25 julho 2007 21:12

Em homenagem ao dia do escritor, "postarei" dois prefácios de escritores que souberam o que estavam fazendo, sem duvida. Oscar Wilde, mais wild que nunca, ataca com classe, toda a sociedade hipócrita que o cercava, no prefácio do bem escrito "Retrato de Dorian Gray". Álvares de Azevedo, claro, minha encarnação passada, não poderia estar fora dessa. Dele há o maravilhoso prefácio da 2ª parte da "Lira dos Vinte Anos".

 

 

Prefácio de “O Retrato de Dorian Gray”, Oscar Wilde

O artista é o criador de coisas belas. Revelar a arte e ocultar o artista é a finalidade da arte.

O crítico é aquele que pode traduzir de um modo diferente ou por um novo processo, a sua impressão das coisas belas. A mais elevada, como a mais baixa das formas de crítica é uma espécie de autobiografia.

Os que encontram significações feias em coisas belas são corruptos sem serem encantadores. Isto é um defeito. Os que encontram belas significações em coisa belas são cultos. Para estes há esperança. Existem os eleitos para os quais as coisas belas significam unicamente Beleza.

Um livro não é, de modo algum, moral ou imoral. Os livros são bem ou mal escritos. Eis tudo.

A aversão do século XIX ao Realismo é a cólera de Calibã por ver o seu próprio rosto num espelho. A aversão do século XIX ao Romantismo é a cólera de Calibã por não ver o seu próprio rosto num espelho.

A vida moral do homem faz parte do tema para o artista, mas a moralidade da arte consiste no uso perfeito de um meio imperfeito.

O artista nada deseja provar. Até as coisas verdadeiras podem ser provadas. Nenhum artista tem simpatias éticas. A simpatia ética num artista constitui um maneirismo de estilo imperdoável.

O artista jamais é mórbido. O artista tudo pode exprimir.

Pensamento e linguagem são para o artista instrumentos de uma arte.

Vício e virtude são para o artista materiais para uma arte. Do ponto de vista da forma, o modelo de todas as artes é a do músico. Do ponto de vista do sentimento é a profissão do ator.

Toda a arte é, ao mesmo tempo, superfície e símbolo.

Os que buscam sob a superfície fazem-no por seu próprio risco.

Os que procuram decifrar o símbolo correm também o seu próprio risco. Na realidade a arte reflete o espectador e não a vida.

A divergência de opiniões sobre uma obra de arte indica que a obra é nova, complexa e vital.

Quando os críticos divergem, o artista está de acordo consigo mesmo.

Podemos perdoar a um homem por haver feito uma coisa útil, contanto que não a admire. A única desculpa de haver feito uma coisa inútil é admirá-la intensamente.

Toda arte é completamente inútil.

 

Prefácio da Segunda Parte da “Lira dos Vinte Anos”, de Álvares de Azevedo

 Cuidado, leitor, ao voltar esta página!

 Aqui dissipa-se o mundo visionário e platônico. Vamos entrar num mundo novo, terra fantástica, verdadeira ilha Baratária de D. Quixote, onde Sancho é rei e vivem Panúrgio, sir John Falstaff, Bardolph, Fígaro e o Sganarello de D. João Tenório: — a pátria dos sonhos de Cervantes e Shakespeare.

 Quase que depois de Ariel esbarramos em Caliban.

  A razão é simples. É que a unidade deste livro funda-se numa binomia: — duas almas que moram nas cavernas de um cérebro pouco mais ou menos de poeta escreveram este livro, verdadeira medalha de duas faces.

 Demais, perdoem-me os poetas do tempo, isto aqui é um tema, senão mais novo, menos esgotado ao menos que o sentimentalismo tão fasbionable desde Werther até René.

 Por um espírito de contradição, quando os homens se vêem inundados de páginas amorosas preferem um conto de Bocaccio, uma caricatura de Rabelais, uma cena de Falstaff no Henrique IV de Shakespeare, um provérbio fantástico daquele polisson Alfredo de Musset, a todas as ternuras elegíacas dessa poesia de arremedo que anda na moda e reduz as moedas de oiro sem liga dos grandes poetas ao troco de cobre, divisível até ao extremo, dos liliputianos poetastros. Antes da Quaresma há o Carnaval.

 Há uma crise nos séculos como nos homens. É quando a poesia cegou deslumbrada de fitar-se no misticismo e caiu do céu sentindo exaustas as suas asas de oiro.

 O poeta acorda na terra. Demais, o poeta é homem: Homo sum, como dizia o célebre Romano. Vê, ouve, sente e, o que é mais, sonha de noite as belas visões palpáveis de acordado. Tem nervos, tem fibra e tem artérias — isto é, antes e depois de ser um ente idealista, é um ente que tem corpo. E, digam o que quiserem, sem esses elementos, que sou o primeiro a reconhecer muito prosaicos, não há poesia.

 O que acontece? Na exaustão causada pelo sentimentalismo, a alma ainda trêmula e ressoante da febre do sangue, a alma que ama e canta, porque sua vida é amor e canto, o que pode senão fazer o poema dos amores da vida real? Poema talvez novo, mas que encerra em si muita verdade e muita natureza, e que sem ser obsceno pode ser erótico, sem ser monótono. Digam e creiam o que quiserem: — todo o vaporoso da visão abstrata não interessa tanto como a realidade formosa da bela mulher a quem amamos.

 O poema então começa pelos últimos crepúsculos do misticismo, brilhando sobre a vida como a tarde sobre a terra. A poesia puríssima banha com seu reflexo ideal a beleza sensível e nua.

 Depois a doença da vida, que não dá ao mundo objetivo cores tão azuladas como o nome britânico de blue devils, descarna e injeta de fel cada vez mais o coração. Nos mesmos lábios onde suspirava a monodia amorosa, vem a sátira que morde.

 É assim. Depois dos poemas épicos, Homero escreveu o poema irônico. Goethe depois de Werther criou o Faust. Depois de Parisina e o Giaour de Byron vem o Cain e Don Juan — Don Juan que começa como Cain pelo amor e acaba como ele pela descrença venenosa e sarcástica.

 Agora basta.

 Ficarás tão adiantado agora, meu leitor, como se não lesses essas páginas, destinadas a não serem lidas. Deus me perdoe! assim é tudo!... até prefácios!

 

!!!!!!!!!!FELIZ DIA DO ESCRITOR!!!!!!!!!!

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receita para bolo de mágoa  (crônicas) escrito em sexta 20 julho 2007 12:38

Como meu amigo Enzo havia pedido, aí vai a receita:

 

IGREDIENTES: 500g. de espectativa; 2 xícaras de desinteresse (em conserva, de preferência); 100 ml. de vinagre; ações impensadas a gosto; 1 copo americano de desculpas esfarrapadas; uma colher de chá de fermento e outra de açúcar.

 

MODO DE FAZER: Coloque toda a espectativa numa tigela funda, misture a ela o açúcar e reserve. Numa outra tigela, junte as xícaras de desinteresse, as ações impensadas e as desculpas. Derrame a mistura homogênea na primeira tigela, que murchará um pouco. Coloque o fermento e, se desejar, adicione mais açúcar. Depois de criar uma massa consistente, derrame o vinagre e leve ao forno por alguns meses. Deixe esfriar e se vingue, digo, sirva.

 

 DICA: Se optar, pode-se usar como cobertura um balde de água fria.

 

Deborah O. Lins de Barros

18/07/2007

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